quarta-feira, 3 de setembro de 2008

UM DIA EM UM TERREIRO DA UMBANDA

Era dia de gira. O terreiro já estava todo limpo e preparado.

Os médiuns responsáveis pela limpeza daquele dia conversavam
alegremente.

A dirigente e as mães pequenas já haviam feito todas as firmezas e
podiam agora se juntar aos demais médiuns para um entrosamento maior.

O ambiente era tranqüilo e feliz.

Duas horas antes do início efetivo da sessão começaram a chegar
os demais médiuns pertencentes a Casa.

Uns mais efusivos que outros como ocorre em todo grupo, todos se
cumprimentam alegremente.

Faltando uma hora para o início dos trabalhos é iniciada a
palestra destinada a assistência e médiuns.

Com a palestra já quase no fim, eis que chega Dora, médium de
pouco mais de três meses na Casa.

Entra quieta e apressada, cumprimenta os irmãos de corrente com um
"Oi" geral, um sorriso amarelo e vai direto para o vestiário
trocar de roupa. Alguns médiuns se entreolham sem saber o porque
daquela irmã nunca se entrosar com eles.

Chega sempre em cima da hora da sessão, nunca se oferece para ajudar na faxina do terreiro e nem participa das obras assistenciais. Mesmo quando é sessão de desenvolvimento, entra muda e sai calada.

Essa atitude dela vem já causando algum desconforto entre alguns
médiuns, que resolvem, com a "melhor das boas intenções"
perguntar a Mãe no Santo, faltando menos de 15 minutos para o
início da sessão, se ela não sabe o porque desse
"descaso" para com os irmãos e para com a própria Casa.

A Mãe no Santo responde:

- Deixem a Dora em paz... ela tem compromissos previamente assumidos que a impedem de estar mais tempo junto de nós. Isso não significa que ela não gosta da Casa ou de nós. Por que ao invés de ficarem especulando não tentam colocá-la mais a vontade em nossa Casa?

Mas Rodrigo é curioso... e dispara:

- Mas Mãe, nem quando ela chega aqui ela fala com a gente direito...
Entra muda e sai calada. Assim fica difícil fazer amizade com ela.

- Ela é tímida. Não lhe passou pela cabeça que a sua forma
de aproximação pode assustá-la ou afastá-la? Menos julgamento,
meu filho e mais amor...

Rodrigo não gostou da resposta da Mãe, mas silenciou pois o olhar
dela lhe disse que o assunto estava encerrado, até porque a sessão
já ia começar.

- Vão para dentro do terreiro... diz a Mãe. Preciso me preparar.

Rodrigo vai para dentro do terreiro determinado a descobrir os "tais
compromissos" e se Dora era realmente tímida ou antipática.
Afinal, ele trabalhava tanto, fazia tanto pela Casa limpava, fazia
faxina, chegava cedo no terreiro, participava das aulas, palestras,
sessões de desenvolvimento... e tinha o mesmo tratamento que Dora?
Recebia da Mãe o mesmo sorriso, a mesma atenção... Não achava
justo isso. Ia dar um jeito de mostrar para a Mãe que ela estava
sendo condescendente demais com aquela médium tão inexpressiva e
indisciplinada.

Começa a sessão... os trabalhos transcorrem normalmente. Dora
incorpora pela primeira vez o seu Caboclo... Saúda o Caboclo chefe e
diz ao Caboclo da Dirigente:

- Esse Caboclo tá muito satisfeito com o que seu aparelho vem fazendo com minha filha. Ela precisa de muita orientação e amparo. Não permita que turvem os olhos e o coração do seu aparelho com
maledicências...

O Caboclo chefe responde:

- Pode ficar tranqüilo. Meu aparelho já sabe.

Ao ver que Dora havia incorporado, Rodrigo sente aumentar ainda mais a sua inveja... e pensa "Agora que ela vai ter mais atenção
mesmo... se sem incorporar nada já recebia atenção... agora
então..." Rodrigo tenta em vão escutar o que os Caboclos
estão dizendo. A sua ansiedade não permitiu que ele mesmo
incorporasse seu enviado de Oxoce. Desequilibrou-se e acabou ficando sem receber as irradiações maravilhosas de seu guia, que tenta
exaustivamente chamá-lo a razão, dizendo a seu ouvido:

- Meu filho, reflita no real motivo que se empenha tanto em ajudar na
Casa. É por humildade ou para "aparecer". A Mãe tem que
zelar por todos igualmente e é óbvio que irá se preocupar com
os que mais necessitam. Abranda o teu coração e sossega teu
pensamento para que possa fazer o que devia ser o teu primeiro objetivo aqui... praticar a caridade servindo de aparelho para mim e a tua Banda toda...

Mas nada... Rodrigo não lhe dava ouvidos. A corrente da Casa já
havia anulado a ação dos espíritos trevosos que circundavam o
terreiro, mas eles encontravam dificuldade em afastar alguns pois
estavam encontrando ressonância de sentimentos em Rodrigo que estava com a "guarda aberta".

O Caboclo Chefe, Sr. Pena Branca, foi avisado pelos guardiões o que
estava se passando. Ele olhou Rodrigo que de tão cego que estava
não percebeu o olhar do Caboclo. O sr. Pena Branca avançou em
direção a Rodrigo que cantava pontos sem prestar a menor atenção a
o que estava acontecendo a sua volta, pois o seu olhar estava fixo sobre Dora incorporada. Quando deu por conta, Sr. Pena Branca estava na sua frente... e falou:

- Curumim! Presta atenção na gira e não em médium. Presta
atenção ao seu guia...

- Mas eu não estou sentindo a vibração dele... acho que não vem
hoje...

- Ele está do seu lado! Sempre! Ele tem compromisso com você e com
a Casa. Você é que está preocupado com coisa que não é
para se preocupar e nem saber. Coisa que não deveria ser do seu
interesse. Cuida do teu e do que veio fazer aqui!

Ato contínuo eleva a mão sobre a testa de Rodrigo sem tocá-la
buscando cortar o elo de ligação com os espíritos trevosos que
desta feita insistem em atuar no mental de Rodrigo.

Rodrigo fecha os olhos e balança suavemente para frente e para
trás... o Sr. Pena Branca dá o seu brado e o Caboclo Flecheiro
incorpora em Rodrigo.

Os dois conversam. O Sr. Pena Branca pede que seja enérgico com
Rodrigo. Que o oriente a deixar os assuntos que não sejam de sua
alçada fora de seus pensamentos. Que não seja intransigente com os
irmãos, que controle a sua curiosidade e julgue menos. Que veja todos
os irmãos iguais e que se conscientize do seu papel dentro do
terreiro e dentro da Umbanda.

O Caboclo Flecheiro promete que irá continuar trabalhando mas que
Rodrigo tem o seu livre arbítrio e pede ajuda nessa tarefa. O Sr.
Pena Branca promete interceder também.

Iniciam as consultas e o trabalho transcorre com tranqüilidade.

Ao término da sessão Dora é só sorrisos. Feliz por haver
incorporado pela primeira vez o seu Caboclo, quase corre para perto da Mãe e a abraça agradecida.

- Mãe, obrigada! As suas palavras ontem me deram novo incentivo, nova vida. Renovaram o meu desejo de crescer, estudar, evoluir. Fiz tudo direitinho conforme a senhora orientou e hoje vi que não estou
louca... Cheguei aqui hoje ainda com um pouco de medo. Mas... Ele existe mesmo e a sensação é maravilhosa. Aqui é a minha Casa por que é a Casa Dele. Além do mais, hoje quando fui fazer a entrevista de emprego, me saí tão bem que já começo a trabalhar na
segunda-feira e terei mais tempo para me dedicar ao Centro e aos estudos da espiritualidade.

A Mãe sorri e responde:

- Viu minha filha? Todos nós passamos por isso, sentimos esse medo,
essa insegurança... só que alguns esquecem que um dia foram
inseguros e tiveram seus problemas também.

Nesse momento a Mãe lança um olhar significativo para Rodrigo que
abaixa a cabeça envergonhado.

Dora acompanha o olhar da Mãe e vê Rodrigo. Dirige-se a ele
sorrindo e com os olhos cheios de lágrimas, diz:

- Rodrigo, você me ajuda? Gostaria muito de ajudar na limpeza de
nosso terreiro e em todas as tarefas disponíveis, agora que arrumei
outro emprego e não trabalho mais em dia de sessão. Como posso
fazer? Falo com quem? Você sempre foi tão prestativo e atencioso
comigo... pode me ajudar?

Felizmente a excitação de Dora não permitiu que ela percebesse o
quão desconcertado e envergonhado Rodrigo estava, pois ele ouvira na
íntegra a conversa entre o seu Caboclo e Sr. Pena Branca e agora
ouvia aquilo...

A Mãe no Santo sorri. Mais uma lição havia sido aprendida por
aquele filho tão querido. Ela volta-se para o Congá e sorri ao
olhar a imagem de seu Caboclo e em pensamento diz: "Obrigada Pai!
Obrigada Umbanda pela oportunidade do aprendizado constante!"

Mensagem Inspirada por Vovó Maria Conga da Bahia

Médium Mãe Iassan

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